A conta que o L7 faz
A gente tava conversando sobre números. Streaming, seguidores, view. E aí ele me jogou uma coisa que eu não esqueci mais.
Tem música dele com quinhentos milhões de visualizações. E tem uma com cem mil. Pra ele, a de cem mil pesa mais. Porque essa, ele sabe, salvou a vida de uma pessoa que ouviu.
Olha que loucura. O cara tem todo motivo do mundo pra se medir pelo número grande. Só que ele chegou sozinho numa parada que eu passei a vida inteira tentando nomear: o que importa não é quantos passaram. É o que ficou em quem passou.
Eu tenho música de quinhentos milhões. Mas é a de cem mil que salvou uma vida.
L7NNON
Onde ele aprendeu isso
Realengo. É de lá que ele vem, e ele não trata isso como vergonha que a gente esconde depois que enriquece. Trata como bandeira. Quando ele volta no bairro e as crianças correm atrás dele, o recado que ele quer deixar é um só: olha pra mim e entende que você pode ir muito além do que eu fui.
O avô, o José, é a pessoa que ele mais ama no mundo. Era o cara que falava com o bairro inteiro, querido por todo mundo. O maior privilégio da vida dele, ele diz, não foi dinheiro nenhum. Foi ter tido família presente, pai, mãe, avó, tia, todo mundo ali moldando o caráter de um moleque.
E aí tem a história da tia. Ele comprou um apartamento e contou pra ela que tinha alugado um lugar pra morar. Ela vibrou, como sempre vibrou com tudo dele. Só que o apartamento era dela. Ela não acreditou. O marido dela tinha ouvido a vida toda que ninguém nunca dá nada a ninguém. Pois deram. Foi um dos dias mais felizes da vida do L7.
Ele me disse uma coisa que eu carrego: vitória sozinha é legal, mas é uma barreira sua. Quando você vê que a sua vitória virou a vitória de um monte de gente, aí sim emociona. E aí você não desiste mais, porque desistir já não é só com você.
O cara que dá nome ao que os outros sentem
Eu falei isso pra ele na cara: você não tem milhões de pessoas te ouvindo porque sabe se comunicar. Você tem porque dá nome a tudo o que os outros sentem e não sabiam dizer.
E ele protege isso com unha e dente. Já recusou campanha de dezoito mil reais, numa época em que dezoito mil eram muito dinheiro, porque não gostou do produto e não ia se trair por grana. Meses depois a marca voltou, com outro produto, e fechou bem maior. As marcas com que ele anda hoje representam quem ele é, não são só um troco. O maior orgulho dele é simples: o que ele é na frente da câmera é o que ele é quando a câmera desliga.
Quando dois mundos se aceitaram
Foi por isso que eu quis tanto esse encontro: o L7 e a Orquestra Novo Traço, juntos, num Session. São dois mundos que precisavam se aceitar, a música urbana e a orquestra. E ele é a ponte, o cara que olha pros dois lados e fala, relaxa, ninguém tá aqui pra te assustar, a gente tá aqui pra somar.
Em abril, no Theatro Municipal do Rio, o rap subiu àquele palco pela primeira vez em cento e dezessete anos. L7NNON, Papatinho e a orquestra. Eu não vou lembrar daquela noite pelo aplauso. Vou lembrar pelo que ficou depois que o teatro esvaziou.
O L7 fala que tá plantando e regando direitinho pra colher quando for embora. A gente tem uma palavra pra isso: Latência. Ele chegou nela sozinho, sem precisar do nome.
Eu não trouxe ele pra dentro de nada.
Eu só quis chegar perto de quem já entendeu, na marra, o que a gente passa a vida tentando construir.